Casas Bahia fecha 298 lojas, corta milhares de empregos e entra em recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas
CEO afirma que unidades encerradas “estavam na UTI”; gigante do varejo reduz operação diante dos juros altos, endividamento das famílias e dificuldades no crédito
Uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro atravessa uma das fases mais delicadas de sua história. O Grupo Casas Bahia fechou 298 lojas, promoveu uma ampla redução de seu quadro de funcionários e entrou com pedido de recuperação judicial, envolvendo aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas.
As medidas fazem parte de uma profunda reestruturação financeira e operacional da companhia. As 298 unidades representam aproximadamente 29% do parque de lojas que a empresa mantinha antes dos cortes.
Em teleconferência realizada nesta segunda-feira (17), o CEO da companhia, Renato Franklin, utilizou uma expressão forte para explicar a decisão de encerrar centenas de pontos físicos: segundo ele, as lojas fechadas “estavam na UTI”, numa referência à baixa viabilidade econômica dessas operações.
Milhares de trabalhadores atingidos
A reestruturação também chegou ao quadro de funcionários. Informações divulgadas sobre o plano apontam para cortes entre aproximadamente 1,9 mil e 3 mil trabalhadores, dependendo da contabilização das diferentes etapas do processo.
O impacto das demissões já provocou reação sindical. O Sindicato dos Comerciários de São Paulo informou que pretende questionar judicialmente a demissão em massa, alegando ausência de negociação prévia com a entidade sindical.
Dívida de R$ 17,3 bilhões
O pedido de recuperação judicial foi apresentado à Justiça de São Paulo e envolve cerca de R$ 17,3 bilhões em obrigações, alcançando aproximadamente 28 mil credores. Entre eles estão instituições financeiras, fundos, seguradoras, fornecedores e outros compromissos da companhia.
A recuperação judicial não significa, automaticamente, o fechamento da empresa. O mecanismo permite que uma companhia em dificuldade financeira tente reorganizar suas dívidas e negociar condições com credores enquanto busca manter suas atividades.
A estratégia da Casas Bahia, portanto, é continuar operando, porém com uma estrutura menor e financeiramente mais sustentável.
Prejuízo bilionário chama atenção
Outro número ajuda a dimensionar a gravidade da situação.
No segundo trimestre de 2026, o Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de aproximadamente R$ 10,1 bilhões. Boa parte desse resultado, entretanto, está relacionada a efeitos contábeis extraordinários: cerca de R$ 9,1 bilhões foram classificados como efeitos não recorrentes, sem impacto imediato equivalente sobre o caixa. Excluindo esses fatores, o prejuízo ajustado ficou próximo de R$ 978 milhões.
A companhia já vinha apresentando dificuldades. Em 2025, acumulou prejuízo de aproximadamente R$ 3 bilhões e, apenas no primeiro trimestre de 2026, registrou resultado negativo superior a R$ 1 bilhão.
Juros altos, crédito caro e consumidor endividado
A crise da Casas Bahia também joga luz sobre um problema que vai muito além de uma única empresa.
O varejo brasileiro enfrenta um ambiente marcado por juros elevados, crédito mais restrito e consumidores endividados. Para uma companhia historicamente ligada à venda parcelada de móveis e eletrodomésticos, o encarecimento do crédito atinge diretamente um dos pilares do negócio.
Franklin afirmou que a empresa trabalha inclusive com a possibilidade de um cenário econômico ainda mais difícil em 2027. Na avaliação do executivo, o endividamento dos consumidores pode continuar pressionando a capacidade de compra das famílias e deteriorando as condições de crédito.
A Casas Bahia também vem adotando critérios mais restritivos para financiar compras de seus clientes.
Crise não atinge somente a Casas Bahia
O momento difícil atravessado pela companhia ocorre em meio a uma pressão mais ampla sobre o comércio.
Dados levantados pelo UOL apontam que, entre junho de 2025 e junho de 2026, houve crescimento de 20,4% no número de empresas varejistas em recuperação judicial no Brasil. Juros elevados, consumo enfraquecido e a concorrência cada vez maior dos marketplaces digitais estão entre os fatores apontados para explicar o cenário.
Nos últimos dois anos e meio, grandes varejistas brasileiras chegaram a reestruturar aproximadamente R$ 68 bilhões em dívidas por meio de processos judiciais ou extrajudiciais.
Uma Casas Bahia menor
O caminho traçado pela administração indica uma mudança importante no tamanho da companhia.
Depois de décadas em que grandes redes varejistas apostaram fortemente na expansão de lojas físicas, a estratégia agora passa pela redução de custos, fechamento de operações pouco rentáveis, revisão da concessão de crédito e fortalecimento dos canais digitais.
O próprio CEO resumiu a direção da companhia: a estratégia daqui para frente é trabalhar com uma empresa menor.
O fechamento de quase 300 lojas de uma das redes mais conhecidas do país torna-se, assim, um símbolo das dificuldades enfrentadas atualmente pelo varejo brasileiro.
Mais do que uma crise empresarial isolada, o episódio acende um alerta sobre o impacto dos juros altos, do endividamento das famílias, da retração do consumo e da transformação dos hábitos de compra sobre empresas que durante décadas construíram sua força a partir das grandes redes de lojas físicas.
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